+ O ARTISTA

Chico Ferreira

Artista Plástico


 + DESTAQUES
  • Oficina de Arte - 1989
    Ministrada por José Celso Martinez Corrêia
  • Workshop Brasil Alemanha - 1990
    Promovido pelo Instituto Goethe
  • Exposição "Cerâmica Brasileira: Construção de uma linguagem"
    Promovida pelo Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo.
  • Intervenções Urbanas: "Em respeito a vida"
    Paraíba ~ São Paulo
  • Intervenções Urbanas: "Ratos no Poder" e "Leite Ninhum"
    João Pessoa, Paraíba
  • Exposição "Lendas Brasileiras" e "Boneca de Pano"
    Ovar, em Portugal:
  • Exposição "Boneca de Pano" - 2002
    Marselhe, França
  • Exposição "Cor" - 2004
    Madri, Espanha


No jardim dos mitos

Por William Costa

 

Amanhece...

O alvoroço dos pássaros, que, em melodiosos pios de alerta, fogem por entre as folhagens em busca da partitura suspensa pelos postes da rede elétrica, anunciam a chegada do visitante. O sol também o denuncia, pois, à sua frente, tudo é sombra e sossego... apenas o som de pratos e talheres e de vozes quase inaudíveis, além do cheirinho de café torrado e moído na hora, revela que há gente em casa, preparando a primeira refeição do dia. Não fosse a indiscrição do ato, atenderia ao desejo de permanecer ali, parado e calado, observando um espetáculo de vida.

Quase oculto pelas coloridas plantas ornamentais, o pequeno e rústico chalé de tijolos aparentes e sucupira deixa à mostra, para quem o observa do portão de entrada, apenas as linhas do telhado em meia-água e da parede lateral direita, perfurada por cobogós. O som do chocalho preso ao portão (à guisa de campainha), o canto dos pássaros, as árvores frutíferas, as cactáceas, a cerca de madeira e as pedras que servem de passarela dão a impressão de que se está num sítio, mas tudo não passa de um agradável engano: o perímetro é urbano.

O chalé ocupa uma faixa de 24m de largura por 32m de comprimento no Altiplano Cabo Branco, a leste de João Pessoa, capital da Paraíba, no Nordeste do Brasil, zona onde está situada a Ponta do Seixas, considerada o ponto mais oriental da América do Sul. A região, embora sob forte processo de urbanização, tem um enorme potencial turístico com suas águas tranqüilas, brisas marinhas, falésias, recifes de coral, areias finas e férteis e seus coqueirais.

Misto de residência, ateliê, galeria e pomar, este foi o local escolhido pelo artista plástico paraibano Chico Ferreira para praticar sua filosofia de vida, trabalhar e receber os amigos. “Não gosto de badalações, como ir a festas, bares ou praias, prefiro a companhia dos amigos em minha própria casa, onde podemos conversar com tranqüilidade e desfrutar dos pequenos prazeres da vida. Como nasci no interior, tento reproduzir, na minha casa, um pouco do ambiente natural e cultural da infância sertaneja”, explica o artista.

Ali, passado, presente e futuro – tradição, modernidade e pós-modernidade - se encontram, tanto na decoração – repleta de referências à vida no campo – quanto no amálgama que faz o artista do ferro-velho (sucata de automóveis) com os elementos naturais (argilas) para produzir seus objetos de arte. O ronco distante de um avião de carreira, que cruza o espaço sobre o Atlântico Sul, levando a incerto destino tripulação e passageiros, contrasta com o bucolismo do ambiente, como um breve murmúrio da civilização.

O chalé de Chico Ferreira é um quase observatório natural, onde, sob a proteção do arvoredo e envolto pelo doce perfume das frutas e flores, assiste-se, com a alma contaminada de poesia, ao moto-contínuo dos astros. A lenta conquista do éter pelo Sol, o parto das estrelas, e o belo e misterioso ir e vir da Lua. Não fossem as chuvas de junho e o frio do sempre nebuloso agosto, além das bruscas intervenções climáticas, nos dias atuais, do furioso e confuso El Ñino, o espetáculo tropical duraria o ano inteiro, como nos desertos arábicos.

No ateliê do artista, instalado ao lado do chalé, nascem, perenizadas para os séculos sem fim pelas ondas térmicas do potente forno elétrico, a rica estatuaria (totêmica e antropomórfica) e a cerâmica artística e utilitária (polimórfica) que deram fama nacional e internacional ao artista. Enormes cabeças atraem a atenção dos olhos pela forma inusitada, quebra proposital dos padrões tradicionalmente relacionados à escultura brasileira. São as tribos urbanas modernas que ali também encontram seu espaço de representação artística.

Assim, na altivez dos planos assimétricos - quer sejam verticais ou horizontais -, ou sob a clausura das figuras geométricas clássicas – o círculo e o quadrado, principalmente -, as representações plásticas do imaginário coletivo e dos personagens populares do Nordeste brasileiro – Caipora, Curupira, Mãe d´Água, Carpideiras, Benzedeiras e Mães-de-Leite – dividem os canteiros de beneditas e jasmins com Tupã – o Senhor do Trovão – e Netuno - o Rei dos Mares. Há, também, os “seres” oníricos, atávicos, filhos da ancestralidade inconsciente.

Arte e natureza se harmonizam na arquitetura simples do chalé, criando um ambiente propício para aprazíveis encontros entre amigos, regados a beberagens fitoterápicas, como o chá de capim-santo e o suco de pitanga, folhas e frutos colhidos no próprio jardim-quintal da casa. “Nada tem o gosto do que nunca acaba/é como beber água na casa de amigos/é como se abrigar dos ventos e dos perigos/é como se sentir no chão/e bem guardado”... Os versos de Zé Ramalho – ele também filho da natureza sertaneja - não encontrariam melhor referência.

As redes de algodão ou fibra de agave e as espreguiçadeiras (cadeiras de balanço feitas de madeira da região) são convites irrecusáveis para o descanso após os verdadeiros banquetes servidos pelo anfitrião com pratos da culinária tradicional nordestina: frutas da época, pão, manteiga-da-terra, queijo de coalho assado e café-com-leite (pela manhã e à noite), arroz-da-terra cozido com nata de leite de gado, carne-de-sol assada, macaxeira e feijão verde (no almoço). Ah, claro que não poderia faltar o cafezinho torrado e moído na hora...

Onde quer que se ponha os olhos, seja no ambiente interno - com cômodos e pergolado parcialmente sobrepostos por um mezanino, ligado à sala principal por uma escada de madeira -, seja no terraço com piso de cimento queimado, haverá sempre um detalhe precioso a se destacar. Aliás, são os detalhes que dão o toque de magia e sedução ao chalé, numa imitação casual de O Jogo da Amarelinha , romance do escritor Julio Cortazar, no qual o leitor é convidado a montar sua própria ordem narrativa, a partir das possibilidades oferecidas pelo autor.

No terraço, o cenário composto pelas cadeiras rústicas, as redes artesanais, a larga mesa de madeira de lei tipo A Santa Ceia , as trepadeiras e seus pássaros habituais é uma idealização das reminiscências da infância do proprietário, vivida em Catolé do Rocha, cidade de médio porte localizada no Alto Sertão da Paraíba. Versão tupiniquim da ágora ateniense, o terraço, com seu piso alto, funciona também como sala de jantar, onde o artista e seus amigos conversam, comem e bebem, enquanto, lá fora, o tempo, sempre respeitoso, passa sem se fazer notar.

A cozinha, isolada da sala principal por uma mesa-prateleira, se traduz como uma composição geométrica enxertada de natureza-morta, com suas lajotas (fabricadas pelo próprio artista), fruteiras, copos de ágata, louças e cerâmicas. O conjunto, do ponto de vista formal, lembra as feiras de mangalhos, locais onde, no Nordeste, são comercializados objetos utilitários fabricados manualmente e iguarias típicas da região. O contraste entre o novo e o arcaico fica por conta do fogão a gás e da geladeira.

Anoitece...

A borboleta pousa sobre as onze-horas. O beija-flor paira no ar contra o crepúsculo e, na varanda, suga da flor artificial a última gota da licorosa água com açúcar. Galinhas cacarejam. Latidos intermitentes. As estátuas inertes pulsam a energia de seus códigos. Uma fauna mitológica adormece fossilizada em pratos e cacos de cerâmica. Um educado “boa-noite” faz cessar o tilintar de louças e talheres. Os grilos entoam cantigas. Lua e estrelas ornamentam o céu. O anfitrião se recolhe. Faróis e sirenes na rua se confundem com o som dos passos de alguém que se vai..